Só no Campeonato Brasileiro, torneio de maior arrecadação, isso representa perda de R$ 210 milhões para os 20 clubes da primeira divisão

Por Eduardo Belo — De São Paulo

02/06/2020 05h00  

Os clubes das principais divisões do futebol brasileiro vão perder este ano em torno de 75% da arrecadação com bilheteria, reflexo da covid-19. A estimativa é da Trevisan Escola de Negócios.

Só no Campeonato Brasileiro, torneio de maior arrecadação, isso representa perda de R$ 210 milhões para os 20 clubes da primeira divisão. Em 2019, a receita de bilheteria da série A do Brasileirão foi de R$ 282 milhões. A venda de ingressos responde por 10% a 15% da arrecadação dos clubes.

Haverá ainda uma perda, não estimada, com patrocínio, diz Fernando Trevisan, diretor da escola de negócios e especialista em marketing esportivo. A julgar pelos sinais que vêm do exterior, ela também será grande. Projeta-se redução de 37% este ano no patrocínio global, um mercado de US$ 57 bilhões de dólares/ano.

“Seguramente os valores de patrocínio serão revistos para as próximas temporadas, mas na medida em que a normalidade se restabeleça, os valores devem voltar a crescer”, diz Artur José Squarisi de Carvalho, coordenador do curso de Educação Física da Unisal.

O patrocínio é a segunda maior receita dos clubes no Brasil (entre 15% e 20%), atrás apenas dos direitos de transmissão (40% do total). Trevisan estima que os direitos de transmissão dos jogos serão pagos, mas haverá um adiamento dos desembolsos devido à paralisação dos torneios. Com a retomada, a situação tende a se normalizar, prevê.

A estimativa de queda de bilheteria leva em conta vários fatores. Um deles é a volta dos jogos com portões fechados. Outro, é o público reduzido no segundo momento, situação que mistura maior rigor sanitário e boa dose de receio de parte do público.

Trevisan também projeta uma redução do tíquete médio. O ingresso vai ficar mais barato porque houve empobrecimento geral da sociedade. Há menos dinheiro disponível para atividades de entretenimento. Também haverá perda com serviços (alimentação, por exemplo) nos estádios.

Além de baixar o preço do ingresso, os clubes também estarão mais propensos a negociar jogadores por valores mais baixos. Duramente afetados na receita e com o dólar jogando a favor dos estrangeiros, essa deve ser a saída para a maioria equilibrar as contas.

“Quase 20% das receitas dos clubes, na média, é de transferência de atletas”, diz Trevisan. “O câmbio superaquecido favorece os europeus e vai facilitar a compra de direitos de atletas. Mas o valor para o Brasil é reduzido. Deve ter bastante negócio, mas por valores menores.”

Um outro fator deve favorecer a revoada de atletas: os tradicionais atrasos de pagamento do futebol brasileiro vão se tornar ainda mais recorrentes diante do aperto financeiro pós-covid-19.

Sem falar na iminência da redução salarial. Ela já é realidade até para as maiores estrelas do futebol mundial. Vários dos mais ricos clubes europeus discutem reduções de 30% a 70% nos salários dos atletas durante a paralisação do torneio. No Brasil, a maioria dos clubes usou a vigência da medida provisória que permite a redução temporária de salários para cortar valores em até 70%.

Os especialistas se dividem sobre se haverá ou não revisão de contratos – de clubes com atletas e de patrocinadores com patrocinados. Trevisan acha natural. Squarisi de Carvalho não acredita em redução permanente nos salários dos atletas. O corte deve durar um ou dois anos, diz.

A paralisação vai levar também a um aprofundamento da discussão sobre uma questão tipicamente brasileira: os campeonatos estaduais.

Esvaziados de importância, os regionais são o último reduto de clubes pequenos, que não conseguem disputar as divisões nacionais. Com a expectativa de torneios como Brasileirão e Libertadores de invadir janeiro do ano que vem, o já espremido intervalo para os estaduais ficará ainda menor. Ainda que as federações estaduais resistam em acabar com seus torneios, o coronavírus pode ser o golpe de misericórdia.

Com o fim dos estaduais, o país teria de discutir também a existência de um grande número de clubes ditos profissionais que não se sustentam, afirma Trevisan. O Brasil tem cerca de 600 clubes considerados profissionais, mas apenas 128 disputam o Campeonato Brasileiro (20 nas séries A, B e C e 68 na D). Os demais jogam os estaduais durante no máximo três meses e ficam sem atividade no restante do ano. Em situação financeira frágil, grande parte vai morrer, prevê.

Squarisi de Carvalho diz que a crise vai acentuar a tendência de clubes financeiramente mais bem resolvidos dominarem o cenário nacional. Trevisan acha que os clubes de maior receita podem sair da crise mais facilmente, mas que “a pandemia afeta a todos por igual”.

Em compensação, o debate sobre a adoção do clube-empresa ganha força. “Para alguns clubes, eu diria que o clube-empresa é a única salvação”, diz Trevisan. “Tem clube com potencial, tamanho de torcida, mas que precisam de uma injeção de investidor, de capital só podem fazer isso caso se tornem empresas.”

Para ele, esse é o caminho da modernização, ao contrário do modelo associativo que perdura no país. O clube-empresa pode trazer para o futebol investidores comprometidos com governança, transparência e compliance, algo que falta para o futebol se tornar um negócio de verdade no Brasil.

Fonte: Valor Econômico. Confira aqui a matéria na íntegra.