Pelas declarações dos dois principais prováveis candidatos à presidência da república e de seus apoiadores, já podemos vislumbrar qual será a estratégia de cada um durante a campanha que se inicia em julho.
Pelo lado do governo, Dilma Rousseff e o presidente Lula não cansam de falar que a eleição será um plebiscito entre duas maneiras diferentes de governar: a do governo atual e a do governo FHC. Segundo eles, o atual governo apresenta resultados muito superiores ao do governo anterior. No final do governo FHC o Brasil devia para o FMI, atualmente o Brasil empresta dinheiro ao FMI. Antes o crescimento do PIB foi muito pequeno, a taxa de desemprego era alta, o salário-mínimo era muito baixo, e a situação da população mais pobre era muito ruim. Agora o crescimento do PIB é muito maior, a taxa de desemprego é muito menor, o salário-mínimo real quase dobrou e a situação dos mais pobres melhorou muito. Sendo assim é evidente que o atual governo teve um desempenho muito superior ao do governo passado. Logo, o povo deve votar em Dilma, que representa a continuidade do atual governo e não em Serra, que representa a volta ao governo anterior.
Pelo lado da oposição, Serra afirma que o Brasil vem avançando desde o início do Plano Real. O atual governo não teria mudado de rumo, apenas aprofundou os fundamentos construídos no governo anterior. O governo Lula não mudou a Lei de Responsabilidade Fiscal, nem o Sistema de Metas de Inflação. O Modelo de câmbio flutuante e de superávits primários foi mantido. Apesar de criticar as privatizações ocorridas no governo FHC, o atual governo não estatizou nenhuma das empresas privatizadas. Os resultados positivos do atual governo se devem ao período de crescimento da economia internacional, que permitiu ao Brasil acumular reserva suficientes para fazer frente à crise financeira do ano passado. Para Serra, depois de o país passar pelo comando de dois líderes políticos, com história e curriculum de estadistas, como FHC e Lula, é chegada a hora de passar o bastão para quem tem porte, experiência e história suficiente para substituí-los. O Brasil está caminhando bem porque foi conduzido por líderes de qualidade e somente continuará indo bem se continuar a ser conduzido por um líder a altura dos anteriores. E este líder seria necessariamente José Serra e não Dilma Rousseff, que não tem nenhuma experiência administrativa e nunca foi eleita a cargo algum.
Como vimos são duas estratégias bem diferentes. Não é possível dizer qual será a vencedora. Isto só saberemos após as eleições de outubro.
Só espero que a eleição seja um debate de alto nível e não apenas atacas de cada parte. Nos últimos anos o nível tem sido muito baixo!
Forte abraço!
Fabio Silva
COMENTÁRIO SOBRE AS DUAS ESTRATÉGIAS: o problema da Verdade
Acontece que ainda não é uma eleição entre programas partidários, mas uma eleição entre diferentes “sopas de letrinhas” (PSDB ou PT). Não há, de forma nítida, propostas partidárias coesas. O PSDB não é socialista e não é liberal. É um troço no meio disso que não se auto define. O PT era “de inspiração comunista” (luta operária) mas também apontava um socialismo moderado (tipo trabalhista). Entretanto,não mexeu de forma contundente no salário mínimo (que leva o trabalhador ao nível da quase-escravidão). Baixou a taxa de juros quase que por obrigação, pois outros países fizeram o mesmo e aí……..deu certo!
O tal bolsa família realmente havia pré-estimulado as economias das pequenas cidades, a saída antecipada da crise mundial deu ao Brasil o que ele precisava: confiança do investidor. O tal “mercado interno”, que sempre havia sido esnobado pelos governantes brasileiros nos últimos 50 anos apareceu (lembro-me da burrice: “exportar é o que importa”)e tirou o Brasil do buraco da crise. A eleição é entre dois partidos e o que se discute é aquele que fará “menos cagada” com o Brasil (perdoem-me pelo vocábulo). Nesse caso, o momento é do PT e digo mais: será do PT durante 20 anos, salvo uma lambança muito grande.
O comando paulista do PSDB e de alguns outros partidos políticos se esqueceu que quem viveu os últimos 40 anos sabe que o final dos anos 70, os anos 80 e 90 foram horríveis! Os jovens, que não viveram essa época, também são conscientes dessa realidade. A VERDADE é que, pelos mais variados motivos, o Brasil atual, o Brasil de Lula e Dilma é muito melhor que o Brasil anterior. Ninguém de razoável ou bom senso quer se arriscar com um Zé Maria, com uma Marina ou com o Serra. Aliás, destes o Serra atrai mais a lembrança de dias bem ruins.
Ainda que o eleitor possa eventualmente creditar algo nesta mudança para a melhor para o PSDB, a sensação de “vida ruim” é naturalmente trazida a psiquê do eleitor pela imagem do candidato Serra (que aliás só fala em doença e remédio).
O PSDB deveria ter investido na juventude ou pelo menos na imagem da “jovem competência”. Haviam dois nomes associados a essa “jovem competência”: o governador Aécio Neves e o prefeito Beto Richa.
Daqui a quatro anos estes já não serão tão jovens, estarão com a face de mais cansados. O mais provável é que daqui a 8 anos tal “imagem” nem possa mais ser utilizada. O PSDB “chutou” a própria sorte!
O PSDB também apostou na “força da Igreja Católica” e demonizou o aborto, conjurou para que não houvesse sexo antes do casamento, e prometeu qualquer coisa que lhe foi pedido pela “santa igreja”. Pasmem! Os fiéis católicos são de todo o tipo, exceto fiéis ao “voto católico”! Ainda que uma carola ou outra até siga a orientação do padre local, a grande maioria dos fiéis possui iniciativa eleitoral própria. O “voto de cabresto católico” não cola quando o eleitor lembra que está comendo melhor e consumindo mais. No máximo, como forma de arrependimento deste católico, ele capricha um pouco mais na “contribuição da cestinha” na hora da missa. O velho PSDB paulista que não quis os jovens tucanos como candidatos a presidência vai desencadear uma crise ainda maior se o Beto Richa perder no Paraná (pela aliança que este fez com os católicos Arns, por ter esnobado o Senador Dias que, disfarçadamente, esqueceu de militar pelo Beto Richa, etc.) e tiver um insucesso nas principais capitais do país.
O PSDB paulista, que diz se preocupar com educação e aprendizado, não aprende!
a) A juventude e dinamismo de um Collor encantou há alguns anos a população brasileira. Não interessa aqui se o governo Collor não deu certo. Fato: a juventude aliada à competência (mesmo que só pretensa competência) arrasta a multidão.
b) A demonização do PT não cola mais junto ao eleitor de classe média.
c) Atacar o passado guerrilheiro da Dilma faz colar no PSDB um “quê” de apoio ao militares durante a ditadura. Isso é péssimo!
d) Falar de remédio a um povo faminto e doente dá voto! Porém, falar de remédio a um povo não faminto, consumindo e que ganha bolsa família é atrair para si “urucubaca”.
Esses geniais paulistas do PSDB que não aprendem, continuam a tratar membros mais jovens (ou não) do próprio partido de outros estados com desdém, pois acreditam que vão vencer eleições nacionais sozinhos. Esqueceram que o Brasil não é só São Paulo!
Américo Vieira, D.Sc. COPPE/UFRJ